Mutilação Genital Feminina

Compreender, prevenir e proteger

“A Mutilação Genital Feminina (MGF) compreende todos os procedimentos que envolvam a remoção parcial ou total da genitália feminina externa ou qualquer lesão aos órgãos genitais femininos sem que haja razões médicas.”

(OMS, 2014)

Trata-se de uma prática profundamente enraizada em determinados contextos sociais e culturais, sendo sustentada por um conjunto de fatores interligados e complexos, que variam entre comunidades, mas que, de forma geral, incluem:

Identidade cultural

Em muitas comunidades, a MGF é entendida como uma tradição ancestral que marca a pertença a um determinado grupo. A sua realização é frequentemente vista como um rito de passagem essencial para a integração social e aceitação na comunidade.

Identidade de género

A prática está frequentemente associada a normas sociais rígidas sobre o que significa “ser mulher”. A MGF é, em alguns contextos, considerada um requisito para a feminilidade, para o casamento e para o reconhecimento social enquanto mulher “adequada”.

Controlo da sexualidade e das funções reprodutivas

Um dos principais objetivos atribuídos à MGF é a regulação da sexualidade feminina, procurando reduzir o desejo sexual e assegurar a virgindade antes do casamento e a fidelidade conjugal. Este controlo reflete desigualdades de género profundamente enraizadas.

Crenças sobre higiene, estética e saúde

Em algumas comunidades, persistem crenças de que os órgãos genitais femininos externos são impuros, inestéticos ou prejudiciais à saúde, o que contribui para a perpetuação da prática, apesar da ausência de qualquer fundamento científico.

Importa sublinhar que a MGF constitui uma violação dos direitos humanos das mulheres e raparigas, com consequências graves para a saúde física, psicológica e sexual, sendo reconhecida internacionalmente como uma forma de violência de género.

Classificação da MGF

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (2025), a MGF é classificada em 4 tipos principais:

1

Tipo 1

Trata-se da remoção parcial ou total da glande do clitóris (a parte externa e visível do clitóris, que é uma zona sensível dos órgãos genitais femininos) e/ou do prepúcio/capuz do clitóris (a prega de pele que envolve a glande do clitóris).

2

Tipo 2

Trata-se da remoção parcial ou total da glande do clitóris e dos pequenos lábios (as pregas internas da vulva), com ou sem remoção dos grandes lábios (as pregas externas da pele da vulva).

3

Tipo 3

Também conhecida como infibulação, trata-se do estreitamento da abertura vaginal através da criação de um selo de cobertura. A membrana é formada através do corte e reposicionamento dos pequenos lábios, ou grandes lábios, por vezes através de pontos de sutura, com ou sem remoção do prepúcio clitoriano/capuz clitoriano e da glande.

4

Tipo 4

Inclui todos os outros procedimentos nocivos aos órgãos genitais femininos para fins não médicos, por exemplo, picadas, piercings, incisões, raspagens e cauterizações na área genital.

Factos e dados estatísticos

A MGF é praticada, principalmente, em raparigas, durante a fase da infância e da adolescência, e, ocasionalmente, em mulheres adultas.
230M+vítimas
De acordo com os dados de 31 países, mais de 230 milhões de raparigas e mulheres vivas foram submetidas à prática, estimando-se que mais de 4 milhões estejam em risco anualmente.
4,5Mem risco
De acordo com o UNFPA (2026), cerca de 4,5 milhões de raparigas — mais de metade com menos de cinco anos — correm o risco de ser submetidas a esta prática.
46%31%
A proporção de raparigas submetidas à MGF diminuiu de 46% (1993) para 31% (2023), mas o crescimento populacional nas regiões prevalentes mantém o desafio. Raparigas em condições precárias e áreas rurais têm maior probabilidade de sofrer MGF.
254casos em Portugal
Em Portugal, em 2024 foram sinalizados 254 casos — o valor mais alto desde 2015. Mais de 130 apresentam problemas de saúde. A média de idade aquando do procedimento foi de 7,7 anos (entre 6 meses e 44 anos).
Contexto em Portugal
Em Portugal, embora existam comunidades oriundas desses contextos, os casos são relativamente raros e estão, na sua maioria, relacionados com situações ocorridas fora do território nacional ou com risco de ocorrência durante deslocações aos países de origem. Por isso, o sistema jurídico português, a intervenção tende a focar-se sobretudo na prevenção, sensibilização e proteção de potenciais vítimas, não sendo uma das tipologias mais frequentes de criminalidade interna.